terça-feira, 17 de julho de 2007

DANÇA DAS LUZES


Após as atividades a que eu me dediquei, guardava na alma os ensinamentos simples daquelas almas elevadas. Não existia em minha alma nenhum resquício de preconceito. Aprendi que, no trabalho do bem, ninguém detém a verdade absoluta e para tudo existe uma explicação.

As atividades dos nossos irmãos que se apresentam como pretos-velhos, caboclos ou sob outras formas perispirituais, devem ser analisadas com mais carinho. Sua roupagem fluídica pouco importa, diante dos fatores morais. Aprendi que, mesmo me afinizando com as tarefas realizadas num centro de orientação espírita, não poderia desprezar aqueles irmãos que tinham tarefas em outros campos espirituais.

Meditava a respeito dessas questões quando o meu mentor aproximou-se de mim falando:

_ Ângelo, acredito que agora você está apto a estudar com maior clareza outras manifestações da religiosidade do nosso povo. As lições de fraternidade estão firmes em seu espírito.


_ E agora eu sei que no universo nada é absolutamente igual. Podemos estar a serviço do Pai, mas podemos também estar trabalhando de formas diferentes, em departamentos diferentes mas levando a mesma bandeira: o amor e a caridade, com o respeito por aqueles que não pensam como nós mas trabalham para o mesmo Senhor.

A noite estava radiante quando a observávamos da nossa colônia espiritual. Éramos felizes por participar de todas essas oportunidades que a bondade de Deus nos concedia. As estrelas salpicavam o céu, convidando-nos a refletir nas lições da vida.

Um cometa rasgava o espaço em direção a outras regiões do infinito.

_ Veja Ângelo, acompanhe a rota deste cometa – falou o bondoso mentor.

_ Creio que, mesmo para um desencarnado em minhas condições, é difícil acompanhar por muito tempo o roteiro de luz da natureza. Minha visão espiritual já está um tanto dilatada, mas mesmo assim...

_ Vamos Ângelo, volitemos em direção à luz – convidou-me o companheiro espiritual.

Tomando-me pela mão, conduzi-me a regiões mais elevadas que a nossa, acompanhando o rastro luminoso do cometa, que agora se apresentava aos nossos olhos espirituais como uma estrela de intensa luminosidade. Fomos subindo, subindo, até que eu não podia mais acompanhar o meu amigo espiritual rumo a esferas mais sutis, superiores. A estrela ascendia cada vez mais e agora eu só poderia prosseguir com o impulso mental do meu mentor.

As regiões espirituais que agora eu estava observando eram totalmente diferentes do nosso plano. Parecia que uma musica suave irradiava de todas as direções. Indizível alegria se apossava de meu espírito. Não compreendia como um simples cometa ou uma simples estrela pudesse atravessar as barreiras das dimensões e se dirigir para as alturas vibracionais.

Agora não podíamos acompanhar mais o seu rastro. Paramos nossa volitação em um posto dos planos mais elevados, nas regiões espirituais. O mentor amoroso apontava-me a direção em que o cometa rasgava o espaço espiritual, dirigindo-se a outras dimensões.

_ Daqui não podemos passar, meu amigo Ângelo. Entretanto acompanharemos o percurso luminoso desse astro errante da espiritualidade.

_ Quer dizer então que não é um simples cometa que estamos observando? – perguntei num misto de espanto e curiosidade.

_ Sim meu filho, é um cometa, um astro, uma estrela ou como você quiser denominar. Não importa a forma como descrevemos. É uma luz que não podemos mais acompanhar com nossos próprios recursos. Já estamos muito distantes vibratoriamente de nossa colônia espiritual e não detemos ainda possibilidade de escalar outros planos mais sutis. Resta-nos observar de longe, a chuva de estrelas.

Calei-me sem entender o que o companheiro espiritual estava querendo dizer. Se ele que era mais elevado não conseguia ir além, quem diria eu, espírito muito endividado, que me fazia de repórter do além, escrevendo para o correio dos mortais.

_ Observe Ângelo – falou, apontando na direção da luz astral do cometa, que há esta hora estava irradiando varias cores.

Outras luzes vinham ao encontro daquela que observávamos. Parecia que vários cometas faziam uma dança sideral, um em torno do outro. Eram luzes irmãs da luz que nós acompanhamos.

_ Afinal, qual é o significado de tais luzes, com tamanha beleza? – perguntei.

_ É a luz astral de um dos pretos-velhos que tão bondosamente nos acendeu durante a nossa jornada na tenda umbandista. Não podemos segui-lo mais. Sua vibração ultrapassa a nossa e vai além de nossas possibilidades. É a luz da simplicidade, do amor e da fraternidade, das quais somos ainda meros aprendizes. Outras entidades elevadas, como ele mesmo, o recebem e em nossa visão espiritual um tanto ainda deficiente, só os percebemos como luzes. Não podemos ainda percebe-los como são verdadeiramente. Por isso, uma dessas luzes espirituais assumiu a forma fluídica de um preto-velho. Somente assim poderíamos percebê-la. Agora no entanto, está retornando a sua esfera irradiante, quem sabe, para assumir outra missão em nome do Eterno Bem.

Só agora eu tinha uma noção a respeito das entidades espirituais que assumem certas tarefas em outros planos da vida. Faltava-me ainda muita experiência para compreender os planos de Deus para os seus filhos.

Retornamos à nossa colônia espiritual com a lembrança das esferas superiores, agradecendo em nossas preces pela oportunidade que Deus nos havia concedido de conviver, por algum tempo com as luzes de Aruanda.

Este texto refere-se ao último capítulo do livrio - Tambores de Angola - de Robson Pinheiro, ditado pelo espírito Ângelo Inácio. O livro todo vale a pena ser lido, pela beleza e pelos ensinamentos maravilhosos, principalmente por mostrar a beleza e a elevação espiritual de nossos amigos preto-velhos, tão discriminados nas rodas espirituais, considerados como ignorantes, por aqueles que se julgam superiores.

Encerro esta mensagem com o prefácio deste mesmo livro, escrito por Pai Jacó:

"Para o bem não há fronteiras...

Num mundo onde a ignorância e o sofrimento abrem chagas no coração humano, o chamado da espiritualidade ecoa em nós de forma a rasgar o véu do preconceito espiritual.

A seara, de extensão condizentes com as nossas necessidades de evolução, espera corações fortalecidas no propósito de servir sem distinções.

A humanidade desencarnada, despidas de dogmas e limitações, abre-se em realização plena em favor daqueles ainda presos a conceitos inibidores da alma.

Pretos-velhos, doutores, caboclos, pintores, filósofos, cientistas e uma gama infinita de companheiro, chegam a nós demonstrando a necessidade urgente de fazer algo, movimentando em nós mesmos, em favor do próximo, os recursos que promovam a libertação das criaturas.

Ao abrir as páginas desta obra, encontrará corações simples, anônimos, porém envoltos pela força da fé no Criador e sinceramente no coração, em fazer o bem pelo bem."

Espero, do fundo de minha alma, ter conseguido mostrar um pouquinho da beleza de nossa querida Umbanda - onde os preto-velhos trabalham a nossa humildade, a nossa paciência, com muita sabedoria, a sabedoria dos mais velhos...

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